História da Astrologia

As origens da astrologia remontam a culturas milenares, onde os zodíacos iniciais, criados por diversas culturas, nos permitem situar os seus primórdios, segundo os cálculos mais prováveis, em 26 000 anos antes da era cristã. 

É nesta época proto-histórica que os signos teriam tido a mesma designação das constelações, conhecimentos que foram transmitidos oralmente, constituindo-se como a primeira forma do que hoje reconhecemos como Astrologia.

 

ÍNDICE


ORIGEM PROTO-HISTÓRICA

A ASTROLOGIA ANTIGA E ORIENTAL

MESOPOTÂMIOS

EGIPTO

HEBREUS

INDIA

A ASTROLOGIA ENTRE OS GREGOS E OS ROMANOS

A ASTROLOGIA E CRISTIANISMO

ASTROLOGIA DO EXTREMO-ORIENTE

A ASTROLOGIA NA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA

A ASTROLOGIA NA IDADE MÉDIA

ISLÃO

ASTROLOGIA ENTRE OS JUDEUS MEDIEVAIS

ASTROLOGIA NO OCIDENTE MEDIEVAL

RENASCIMENTO

ASTROLOGIA E NOSTRADAMUS

ITALIA E ALEMANHA

KEPLER E A ASTROLOGIA

ASTRÓLOGOS ROSACRUCIANOS

ASTROLOGIA EM DESCRÉDITO CIENTIFICO

SOBREVIVÊNCIA DA ASTROLOGIA

DESPERTAR DA ASTROLOGIA

SÉCULO XX

ÚLTIMA ANÁLISE
FONTES


ORIGEM PROTO-HISTÓRICA
A aparição da astrologia pode ser fixada antes da escrita, num período anterior à época Pré-histórica – na Proto-história - sendo que, inicialmente, o Homem limitava-se a observar a abóboda celeste e a perscrutar os movimentos dos astros.
Foi, portanto, só na era pré-histórica que as observações iniciais passaram por processos de sistematização e correlação entre os eventos celestes e os acontecimentos terrestres. Inegávelmente, os homens da Proto-história souberam determinar com precisão a direção do levantar do Sol e as suas variações no curso anual das estações. Os sábios puderam estabelecer, sem contestação, por exemplo, a orientação solar das grandes estações megalíticas como Stonehenge, na Inglaterra, e Carnac, na Bretanha. Vê-se, portanto, que se desenha, a partir da origem, o carácter sacerdotal das primeiras investigações astronómicas e, portanto, da Astrologia.

Alinhamento de CarnacNeste último exemplo, alguns autores quiseram ir mais longe, considerando os alinhamentos de Carnac como uma representação exata de certas partes precisas do céu astronómico, com todas as suas constelações.

É de notar, de qualquer modo, a importância capital dos dois solstícios e dos dois equinócios, em toda a astrologia proto-histórica. Devemos fazer uma breve referência a algumas hipóteses fantásticas levantadas por autores mais audaciosos, que colocam a origem da Astrologia em plena Pré-história.

O autor Robert Charroux, por exemplo, no seu livro “Livre des secrets trahis”, evocou, não só a existência de, muito hipotéticas, raças gigantes na época antediluviana, como se admitiu contactos entre estas lendárias civilizações terrestres, tão longínquas no tempo, e misteriosos civilizadores extraterrestres que teriam vindo do planeta Vénus.

Para isto basearam-se no famoso calendário venusiano descoberto nas ruínas pré-colombianas de Tiahuanaco perto do lago Titicaca, para desenvolverem hipóteses bem românticas. Nada prova, para já, que Tiahuaanaco tenha, verdadeiramente, sido, como se pretende, “a mais antiga cidade do mundo”. Para vários arqueólogos especializados, estas famosas ruínas remontariam, de facto, a um período situado (se nos exprimirmos segundo a cronologia ocidental) ao inicio da Idade Média ( Robert Laffont, capitulo I, acerca da astrologia na época pré-colombiana).

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A ASTROLOGIA ANTIGA E ORIENTAL

MESOPOTÂMIOS

 

No Império Romano, o nome dos Caldeus[1] tornou-se, pouco a pouco, sinónimo de astrólogo, o que trouxe a confirmação da teoria, segundo a qual a orientação pelos astros, sob a sua forma verdadeiramente codificada, surgiu na Babilónia e nas províncias vizinhas.

A arqueologia parece confirmar completamente esta opinião histórica corrente. Adicionalmente aos documentos seguros, que atestam a existência muito desenvolvida da astrologia entre os Caldeus, dois ou três milénios antes da era cristã, surgiram descobertas mais recentes que localizam a sua prática numa época nitidamente anterior, a dos Sumérios, que a teriam trazido da Ásia central, por volta do milénio V a. C.
O historiador Paul Masson Oursel na sua obra “La philosophie en Orient” (fascículo suplementar da Histoire de la Philosophie, de Émile Brehier) faz referência aos princípios estruturantes da astrologia mesopotâmica, situando a sua origem num período muito além do estabelecimento definitivo do cristianismo, colocando-a mesmo após a implantação da religião islâmica no mundo mediterrânico.

Foram achadas na Mesopotâmia muitas tabelas planetárias gravadas em tijolos, como todos os documentos escritos que remontam aos Sumérios, aos Babilónios, aos Caldeus e aos Assírios.

Em todas as velhas civilizações mesopotâmicas, encontrámos a existência no clero de uma categoria especial de padres - a dos adivinhos - que praticavam outros métodos “ocultos” (interpretação dos presságios, dos sonhos, etc...) e cultivaram, muito especialmente, aquilo que viria a ser a astrologia. Apesar de inicialmente esta se encontrar ao alcance dos soberanos e, posteriormente, da aristocracia, pouco a pouco, estas técnicas foram postas ao serviço de um número cada vez mais crescente de particulares (verificar-se-á o mesmo fenómeno no Egipto antigo). A influência da astrologia foi-se tornando cada vez mais forte, mesmo sobre os acontecimentos da vida quotidiana. Os grandes templos da Mesopotâmia antiga comportavam uma torre, chamada, pelos Babilónios, de Ziggourat, formada por sete andares diversamente coloridos, que simbolizavam as regiões sucessivas e hierarquizadas, que unem a abóboda celeste à terra. [2] Do cimo destas torres, os adivinhos observavam com precisão o movimento dos astros no céu, e não se pode negar terem atingido uma mestria notavél nos resultados matemáticos, pois já sabiam calcular as datas dos eclipses solares e lunares.

Deve-se-lhes a elaboração das divisões comuns do calendário no Ocidente, usadas ainda nos nossos dias: meses, semanas, dias, horas. O Sol assume, assim, o papel central personalizado num deus, e, tal como os outros planetas, era considerado desta forma uma divindade. No entanto, não seria correto supor que entre estes primeiros astrólogos, tão hábeis a perscrutar aparências, existisse um conhecimento das verdades da astronomia fisica.

Como em muitas outras civilizações da Antiguidade, a abóboda celeste achava-se concebida com um limite preciso e rígido, supondo-se que fechava o mundo sublunar. Pelos astros, espécie de bóias translúcidas, descia até nós, a luz eterna, vinda d’além desta abóboda dos céus.

Na altura da descoberta da bibioteca do rei assírio Assourbanipal, nas ruínas de Ninive, os arqueólogos acharam tábuas que reproduziam a cópia, realizada cerca do ano 700 a.C., de uma colecção astrológica elaborada numa data anterior, a do rei Shargon, o Antigo, e que mostram a ligação estreita entre a astrologia, no sentido estrito do termo, e a interpertação dos presságios.

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EGIPTO

Se a Babilónia é vista, classicamente, como a pátria de origem por excelência da astrologia, este privilégio de anterioridade deveria ser partilhado, em boa justiça, com um outro país da muito velha civilização mediterrânica - O Egipto.

Na época tardia da influência crescente da religião cristã sobre o Egipto helenizado, os astrólogos deste país gozavam de uma lisonjeira reputação que ultrapassava até os limites da pátria romanizada. Nos Stromates (VI,4) um Doutor da Igreja, Clemente de Alexandria, deixou-nos um retrato muito vivo do astrólogo egício do seu tempo, descrito como “tendo na mão o relógio e na palma, emblemas da sua arte. Segundo o costume, devia estar pronto para recitar longamente os quatro livros astrológicos de Hermes, um dos quais trata da ordem das estrelas que parecem fixas, o outro das conjunções e da luz do Sol e da Lua”. Ainda Eusébio escrevia (Preparação evangélica,X6), “Foram os Egípcios e os Caldeus os primeiros a descobrir a astrologia”.

Talvez não seja inútil dizer agora algumas palavras acerca das hipóteses fantásticas que foram formuladas a respeito das Pirâmides. Um dos imcomparáveis testemunhos monumentais deixados pelos homens do Egipto antigo, e que não deixa de intrigar muitos autores modernos, é a tão famosa reunião das três impressionantes pirâmides de Gizèh, na margem esquerda do Nilo. Segundo o astrólogo Dom Néroman (Grande Encyclopédie Illustrée das Sciences Occultes, T.II, p.138), a Grande Pirâmide seria – e retoma a afirmação tão audociosa de muitos esoteristas – uma espécie de resumo de todos os conhecimentos secretos tradicionais apreendidos pelos padres no ínico da época faraónica, no próprio começo do Antigo Império Egípcio. É de facto inegável que a Grande Pirâmide revela, pelos próprios pormenores da sua orientação, conhecimentos astronómicos muito precisos da parte dos construtores egípcios.

Os Egípcios dispunham de uma calendário já muito aperfeiçoado, chamado calendário Sotíaco, que partia do ano 4241 a. C.. Observamos a divisão das doze constelações zodicais em três partes, cada uma das quais é designada pela estrela mais brilhante. Deste modo, determinaram-se trinta e seis divisões ou decanatos, correspondendo às divisões decenais do círculo zodiacal dos 360 graus.

O que complica a tarefa do historiador é a atribuição dada pelos Egípcios de diferentes nomes às constelações daqueles que se tornaram tão nossos conhecidos. A título exemplificativo, a nossa Ursa Maior chamava-se a perna do boi, o Cisne designava-se pelo homem de braços estendidos, o Orion era o homem a correr olhando por cima do ombro, etc.
 

Zodíaco Circular de DenderahPara os egípcios o erguer helíaco da estrela Sírio Sothis – astro que desempenhava um papel crucial no seu calendário - determinava o ano real. Um dos testemunhos astrológicos egípcios mais importantes, é sem qualquer dúvida, o Zodiaco circular esculpido no tecto do templo de Denderah, e descoberto pelo general Desaix durante a expedição de Bonaparte (1798), que se encontra no Museu do Louvre. É importante reforçar que este famoso Zodiaco incorporava todos os conhecimentos sacerdotais egípcios relativos à abóboda celeste. Observa-se, nesta representação tão bela, a maneira como os diversos animais e personagens do Zodiaco olham o Ocidente, e parecem dirigir-se todos no sentido do movimento diurno.

Para os Egipcios, o Oriente (onde nasce o Sol) era, tradicionalmente, a fonte da luz, e o Ocidente era, pelo contrário, concebido como o lado escuro, das trevas (do além). As estrelas têm sete pontas, número particularmente sagrado entre os Egípcios, como em muitas outras tradições antigas. Entre as representações animais, citemos o gavião (símbolo do equador), a íbis (simbolo da ecliptica), o macaco cinocéfalo (simbolo dos dois equinocios).

No entanto, se a distinção usual dos signos do Zodiaco parece ter vindo da Grécia, é inegável na alta Antiguidade, no próprio Egipto, da divisão, não menos tradicional, da zona celeste próxima da ecliptica em trinta e seis decanos, cada um dos quais é considerado como o domínio priviligiado de um génio celeste. Nos tratados ditos herméticos (colocados na época por Hermes Trismegisto), fala-se dos trinta e seis decanos situados no meio do círculo zodiacal.

E quanto à astrologia própriamente dita, sob a sua forma mais corrente – o estudo da influência da posição dos astros sobre o destino individual - a sua popularidade só se verificou no Egipto nas épocas muito baixas. Ao que parece, numerosos egiptólogos inclinaram-se a levar em conta a herança babilónica, depois as influências gregas (na época ptolomaica) e, a seguir, as romanas. Pessoalmente, acreditamos na existência de uma astrologia sacerdotal egípcia de antiga data, que se encontrava primeiro limitada ao soberano, ao país no seu conjunto,e às mais altas personalidades, como na Babilónia. Só progressivamente a previsão astrológica se alargou a camadas sociais cada vez mais numerosas, até acabar, numa última etapa, por atingir todos os meios.

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HEBREUS

Para podermos enquadrar a astrologia na cultura hebraica, seria necessário averiguar se a sua crença se manifesta na Bíblia. Indubitavelmente, o conhecimento dos ciclos solares e lunares, fundamentos das previsões astrológicas, não foi desconhecido dos padres de Israel. Não foi o Templo de Jerusalém construído de tal maneira que, nos dois equinócios, os raios do Sol nascente vinham atingir o próprio coração do Santuário? Moisés não marcou o êxodo para a noite de lua cheia da Primavera, o que supunha da parte do grande legislador hebraico um conhecimento da ciclologia lunar? Não se poderia fazer corresponder analogicamente as doze tribos de Israel, abençoadas por Jacob, e as doze constelações zodicais? Na visão de Ezequiel da Nova Jerusalém, a eclíptica parecia ser considerada por este grande profeta como determinação de um circuito, no qual o resultado constituiria, de facto, um retorno ao começo do ciclo terrestre: “E, a partir deste dia, o nome da cidade será: o Eterno está aqui.”

Encontram-se estas correspondências zodiacais na época neotestamentária, na descrição da Nova Jerusalém que surgirá no Apocalipse de São João. A Nova Jerusalém “tinha doze portas, e sobre as portas doze anjos, e nomes escritos, das tribos dos filhos de Israel”, reflexo direto, pois, da numerologia astrológica. Pôr-se-ia, contudo, o problema de saber, antes de mais, se a astrologia prática, no sentido mais corrente do termo, isto é, a fixação de horóscopos individuais, se encontraria incluída desde a origem nos conhecimentos tradicionais que a Bíblia nos deixa entrever.

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INDIA

“Na ordem das ciências, a Índia recebeu mais do que deu.” – P.Masson-Oursel, La Philosophie en Orient, p.107: A astronomia indiana tradicional, onde se inclui a astrologia, encontra-se reunida em textos helenísticos e iranianos no Sûrya Siddhânta. A sua leitura atenta revela-nos logo o papel capital desempenhado pela introdução de sistemas estrangeiros: a astronomia grega no Romaka Siddhânta, a astrologia babilónica no Pauliça Siddhânta (obra composta cerca do ano 550 da nossa era por Varâha Mihira, célebre como sábio e astrólogo) e os cultos solares helenísticos e iranianos no Sûrya Siddhânta.

Mas é necessário mencionar as primeiras referências e registos astrológicos na cultura indiana, antes mesmo da época da sua visibilidade e difusão maciça (VI-VII séculos da nossa era), encontrando-se aberta, na altura, a certas influências chinesas, muito especialmente no que concerne ao zodíaco lunar.

Além de Varâha Mihira, citemos entre os primeiros astrológos indianos: Aryabhata, que foi também matemático de valor; Brahmagupta (nascido em 598), autor do tratado Khandakhyadyaka (665); e Kankah, que depois da conquista muçulmana, comunicou os seus conhecimentos astronómicos aos Árabes. Nem nos Vedas, nem nas Escrituras bramânicas se poderia encontrar uma astrologia solar no sentido preciso do termo (elaboração de horóscopos individuais). Em compensação, encontrar-se-iam vestigios, desde o Mahabbarata, (redigido entre os anos 300 a.C. e 500 d.C), de uma espécie de astrologia lunar, representando a forma mais antiga da astrologia.

Não seria inútil tentarmos avaliar o lugar possivel do determinismo astrológico corrente nas concepções indianas tradicionais, acerca dos ciclos e do tempo. Na Índia, deve ter-se em conta a maneira como o “destino” do homem se encontra sempre vinculado a perspectivas cósmicas, o que remete para a questão geral do determinismo astrológico. Isto é notório na noção de Karma, segundo a qual os actos e pensamentos do individuo regeriam tudo o que realizasse nesta vida terrestre e naquelas que se seguissem.

Retomando a abordagem à própria prática da astrologia, os astrólogos indianos fazem, ainda hoje, um uso meticuloso do seu tratado mais clássico que comporta os livros que compôem a obra de Varâha Mihira, sendo eles o Brihad-Samhita, manual de astrologia geral e natural; o Brihad-Dschataka e o Laghu Dschatakam, que são, respectivamente, o “grande”, e o “pequeno” tratado para a arte de elaborar horóscopos; o Yoga-Dschartas, que codifica as regras da astrologia hóraria para fins militares e politicos, e o quinto livro, o Vivaha Patala, que fornece regras da astrologia horária nos domínios civis ou religiosos.

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[1] Fala-se dos “Caldeus” com grande extensão do emprego deste nome, mas o termo Mesopotâmios seria, sem dúvida, muito mais exato, porque os Caldeus não foram, de modo nenhum, os únicos povos antigos que conquistaram no Médio-Oriente esta região-chave do “crescente das terras férteis” que é a Mesopotâmia (o país “entre os rios” – que são o Tigre e o Eufrates) e os territórios vizinhos.

 

[2] A Ziggourat adoptava, também, outra expressão babilónica - o El-Temen-An-ti, que significa literalmente “a casa da pedra fundamental do céu e da terra”.

 

A ASTROLOGIA ENTRE OS GREGOS E OS ROMANOS
 

“A astrologia é uma religião oriental que, transplantada na Grécia, um país de “físicos” e de filósofos, ali tomou aspetos de uma ciência. Inteligível como religião, retirou da astronomia princípios, medidas, especulações aritméticas e geométricas, também inteligíveis, mas procedendo da razão pura, e já não da mistura complexa de sentimentos que é a razão prática das religiões. Da associação destas duas formas de raciocinar saiu uma combinação bastarda, no fundo ilógica, mas provida de uma lógica especial, que consiste na arte de tirar de axiomas imaginários, fornecidos pela religião, demostrações conformes aos métodos da ciência. Esta combinação, que poderia parecer instável, mostrou-se, pelo contrário, singularmente resistente, flexível e plástica a ponto de se adaptar a todas as doutrinas, lisonjear o sentimento religioso e interessar ainda mais os ateus.” Bouché-Leclerq

Sem sombra de dúvida, a astrologia grega é de origem caldaica. Entre a maioria dos filósofos gregos, era firme a crença na influência direta dos astros e dos seus movimentos sobre o destino humano. Isto é particularmente nítido em Pitágoras (que terá nascido em Samos cerca do ano 582 a.C), com a sua doutrina, tão característica, sobre os planetas que percorriam a abóboda celeste emitindo cada um a sua nota muscial própria, engendrando a combinação destas tonalidades, acreditavam os Pitagóricos, aquilo a que se chamava a harmonia das esferas.

Tanto Platão como Aristóteles, depois de Pitágoras, acreditavam firmemente na influência direta dos astros sobre o determinismo das ações humanas.

Os astrológos gregos não desdenharam tentar previsões à escala geral, esforçando-se por estudar o papel motor dos ciclos solar e lunar, quer no conjunto dos fenómenos da natureza, quer sobre o destino dos grupos. Mas dedicaram-se, muito especialmente, a fazer horóscopos. Dos inúmeros temas astrológicos que os gregos elaboraram, cento e oitenta chegaram até nós (existe uma tradução em inglês integral, na obra Neugebauer e Van Hoessen, Greek Horoscopes, Filadélfia, The American Philosophical Society, 1959).

Em 139 a.C., um decreto de Cornelius Hispallus tentou proscrever os astrólogos, com um total insucesso. Com o declinio da Républica, a previsão pelos astros continuou a demonstrar crescentes progressos. Com o Império, alcançou-se o triunfo astrológico, tanto entre o povo mais crédulo, como na aristocracia letrada, entre os sábios e os filósofos. Figuras históricas como Júlio César, Crasso e Pompeu, acreditaram firmemente na total verdade das previsões astrológicas. É na época de César que surge um vasto poema didático, em cinco livros, os Astronómicos, obra do astrológo Manilius. Extraímos dele um verso: “o destino governa o mundo, o universo é regido por uma lei infléxivel.” (ver a obra de Fréderic H. Cramer: Astrology in Roman Law and Politics, Philadelphia.)

Reconhece-se aqui um reflexo da metafisica estoica, a Lei que rege o Universo considerada como a própria emanação do Espírito Divino. O Imperador Augusto não hesitou em publicar o seu horóscopo, elaborado pelo astrólogo Teógenes, e mandou cunhar uma moeda de prata em que figurava o Capricórnio, signo do seu nascimento.

A astrologia romana deve ser considerada, sem qualquer hesitação, como herdeira direta da astrologia grega e das divindades latinas, tendo adoptado os seus nomes clássicos, que ainda hoje vigoram (Marte, Mercúrio, etc.), para nomear os planetas, que eram simples equivalências das designações gregas. A personalidade mais reputada da astrologia na época romana tinha, de resto, um nome grego, Ptolomeu, autor dos dois grandes clássicos da astrologia que são o Quadripartitum (título latino usado com frequência, do Tetrabiblos) e o Centiloquim.

Cláudio Ptolomeu, originário de Pelúsio, mas grego de origem, foi, simultaneamente, astrólogo e astrónomo, tendo ensinado em Alexandria com grande êxito. É de notar que pôs, muito pertinentemente, o problema, que não deixará de preocupar os astrólogos, de uma possível conciliação entre o determinismo astrológico e o livre-arbítrio. Para Ptolomeu, a astrologia, permitir-nos-ia mesmo, uma vez conhecidos os perigos inscritos no nosso tema de nascimento, orientar a nossa vida tendo em conta o nosso “destino” normal, e estando, portanto, muito mais bem armado para evitar os seus perigos.

Muitos documentos atestam a união direta da astrologia com as crenças religiosas pagãs, sob as suas formas codificadas e estruturadas na época imperial. Cite-se um altar romano conservado no Museu do Louvre, em que se encontram figurados os doze signos do zodiaco.

A astrologia não podia ter lugar na previsão oficial, institucionalizada da antiga religião romana, mas o mesmo não acontece no Império, quando crenças e ritos foram cada vez mais penetrados pelos cultos orientais.

Foi no século III da nossa era, cujo apogeu histórico se situa no Império Romano, que se destacou em particular, o culminar dos mistérios solares. Ao mesmo tempo que se desenvolveram os mistérios orientais, ergueram-se em Roma e nas províncias esplêndidas – septizonia -, edifícios de sete andares que evocavam a imagem das sete esferas planetárias, donas do destino do homem, o mesmo simbolismo que nas antigas Ziggourats babilónicas.

A expansão das gnoses diversas (conjunto de sistemas que aspiravam a proporcionar aos homens um “conhecimento” – grego gnôsis-salvador) acompanhará a da astrologia. Nos tratados herméticos vêem-se assim os humanos divididos em sete tipos, os quais se encontram em correspondencia com os sete planetas, e os doze signos do Zodiaco foram relacionados com as diferentes partes do corpo humano que governam.

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A ASTROLOGIA E CRISTIANISMO
 

Segundo a tradição, uma estrela teria guiado os três “Reis Magos” até ao presépio de Belém. Mas quem eram estas três personagens que vinham adorar o Salvador? Não soberanos, mas sem dúvida Magos no sentido antigo e preciso, isto é, provavelmente padres ou adivinhos do Irão ou da Babilónia. Se a lenda, na totalidade ou parte, se revelava historicamente verdadeira, seria normal tentar interpertar o facto.
A “estrela dos Magos” não teria sido um simples cometa? Ou antes – hipótese que Kepler viria a desenvolver – ter-se-ia tratado de uma conjunção excepcional dos planetas Marte, Júpiter e Saturno que, sobrepondo-se no Céu, teriam apresentado o aspeto paradoxal de uma única estrela gigante, de uma claridade expecional? De qualquer modo, os astrológos cristãos não deixaram, ao longo das idades, de fazer notar este patrocinio celeste, estes “sinais do céu” que estariam associados ao nascimento de Jesus. Cedamos a palavra ao historiador Bouché-Leclerq: “Dizer que Deus se servira de um astro para avisar os magos, simplesmente porque eram astrológos, não enfraquece a conclusão; haviam sido avisados, e, portanto, compreendiam os sinais celestes”.
Nem todos os Doutores da Igreja e os outros autores cristãos serão hostis à astrologia. Para Julius Firmicus Maternus (século IV), a astrologia apresenta-se mesmo como uma disciplina susceptivel de conduzir às grandes verdades cristãs; o Espirito divino exerce cá em baixo a sua influência por meio dos astros. Quanto à alma humana, que é uma chama daquele, pode, graças ao conhecimento das esferas celestes, alcançar a contemplação das realidades, das entidades do plano superior.

Já abordámos a astrologia indiana, mas resta debruçarmo-nos sobre a astrologia do Extremo Oriente e da América pré-colombiana.

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ASTROLOGIA DO EXTREMO-ORIENTE

Na China, a astrologia esteve florescente vários séculos antes da era cristã e a sua popularidade não deixou de aumentar até à Idade Média. Até ao fim do Império Chinês, marcado pela dinastia Manchu, a astrologia conservou o favor da aristocracia e dos letrados. Quando a velha Imperatriz Tseu-hi morreu (29 de Novembro de 1909), a hora do funeral ainda foi determinada pelos astrólogos da corte, como fora para todos os soberanos do celeste Império.
Tem sido posto o problema das origens históricas longínquas da astrologia chinesa. Se certos autores a consideram como extremamente antiga, outros vêem-na como um edifício divinatório, de facto, posterior à advinhação planetária dos Caldeus, que seria, ela sim, a forma mais antiga conhecida das artes astrológicas. Sejam quais forem as suas origens primárias, a astrologia chinesa forma um conjunto complexo, que se desenvolveu segundo a sua própria evolução (ver tomo III – Mathematics and Sciences of the Heavens and the Earth-da volumosa obra de Joseph Needham, Science an Civilization en China).

Não parecia completamente absurdo ver entre a astrologia chinesa e a dos Maias e Aztecas, das Américas do Norte e Central, estranhas semelhanças, muito especialmente no emprego de um simbolismo animal desconhecido pelos astrólogos europeus ( ver L’astrologie chez les Mayas et les Azetéques).

No entender de muitos astrólogos chineses, o horóscopo ideal seria o elaborado para o momento da concepção, coisa dificil de alcançar, porque este momento só muito raramente é conhecido com real exatidão.
Ainda hoje, a astrologia permanece viva em regiões de povoamento chinês (Hong-Kong, Formosa) ou de forte percentagem chinesa na população (como na Malásia, por exemplo), encontrando-se esta prática evidentemente classificada entre as velhas superstições, clandestinas, na China comunista. A astrologia chinesa fez nascer as formas análogas desta arte desenvolvidas nos outros países do Extremo-Oriente, como na Coreia e Japão, e na Ásia central.

A astrologia do celeste Império distinguia, com efeito, cinco planetas (o Sol e a Lua eram considerados parte), cinco elementos, cinco pontos cardeais (por junção do Meio às quatro direcções clássicas do espaço), cinco Senhores deste, cinco sentidos e cinco orgãos internos.

De acordo com certos autores, os Chineses teriam conhecido, contudo, desde a mais alta Antiguidade, a existência de planetas gravitando para além da órbita de Saturno. Os Chineses, do mesmo modo que a América pré-colombiana, tinham-se dedicado com minúcia à elaboração de um calendário preciso, revelando um conhecimento extremamente desenvolvido dos ciclos solares e lunares. O velho calendário chinês teve início no ano 2637 a.c, época do Império lendário Houng-ti, ao qual era atribuida a descoberta do ciclo sextenário do planeta Júpiter, chave dos cálculos astrológicos chineses. Os anos, que seguem um ciclo de sessenta anos, são designados por um animal (há doze animais simbolicos) e por um elemento. No Extremo-Oriente e na Ásia central, desenvolveu-se uma medicina tradicional, que se esforçava por harmonizar os medicamentos ao tipo astrológico do doente.

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A ASTROLOGIA NA AMÉRICA PRÉ-COLOMBIANA

 

Os Maias e os Aztecas tinham desenvolvido, entre outros conhecimentos tradicionais muito complexos, toda uma astrologia. Um astrológo predissera ao futuro conquistador Hernán Cortés, numa altura em que vegetava asaz lamentávelmente em Espanha, que viria um dia a dispor (como aconteceu) de um poderio “que ultrapassaria o dos reis”. Alexandre Volguine, eminente astrológo actual e autor de um importante estudo histórico (ver ’Astrologic chez les Mayas et les Aztéques), diz: “ os nossos conhecimentos astrológicos seriam certamente mais ricos e mais desenvolvidos do que são”, se os Espanhóis não tivessem procedido à destruição sistemática de toda a literatura manuscrita que lhes caiu nas mãos, pois muito pouca coisa escapou às chamas. Podemos, apesar de tudo, verificar o carácter elaborado dos conhecimentos astronómicos e astrológicos destas grandes civilizações.
Os Maias estudaram o curso dos astros para estabelecer um calendário de total precisão que consideravam indispensável para a celebração de festas e cerimónias religiosas. Como na astrologia babilónica, havia, portanto, uma ligação estreita entre a astrologia e a religião. Tal como entre os Caldeus, os astrológos (e astrónomos, pois as duas actividades confundiam-se) eram sempre sacerdotes.

A própria estrutura da sociedade e dos Estados da América pré-colombiana visava refletir a ordem celeste. Desta forma, um dos Estados da península do Yucatán, o de Maia-pan, achava-se dividido em treze províncias concêntricas simbolizando os dozes signos do Zodiaco rodeando o Sol. 

Os Maias atribuíam aos quatro pontos cardeais (os quatro ângulos principais do mapa astral) Senhores divinos, os quatro Bacab, estabelecidos na origem do mundo, nos quatro cantos da Terra, para susterem o Céu, e não sujeitos às destruições cíclicas do nosso mundo. O maior era o Bacab do Este, marcando o próprio início do Zodiaco - Muluc. Os outros Bacab eram Kan, Bacab do Meio-dia; Ix, Senhor do Norte; Cauc, dominador do Ocidente.

Os Aztecas fizeram intervir no seu calendário os quatro senhores da Noite (Yohual-Teauhtin) que regem o destino humano e imprimem a sua marca em cada um dos dias. O que impressiona nos Maias e nos Aztecas é, seguramente, a extrema complexidade da sua ciclologia. Para além dos destinos individuais, havia o destino colectivo da Humanidade no seu conjunto, submetida a uma sequência implacável de períodos de expansão e de destruições.

Para o ano havia um ciclo de 260 dias, chamado Tonallamatl, formado por vinte periodos de treze dias, tendo cada um deles um número e um signo. No 260º dia abria-se uma outra fase denominada por um outro “Senhor da Noite”. Paralelamente ao período de treze dias, decorria um ciclo de 13 vezes 20 dias (dando igualmente 260 dias). O ano solar era formado por 18 periodos de 20 dias, mais cinco ou seis dias suplementares (considerados nefastos), acrescentando a estes “dias sem nome”, as 27 trezenas e um 28º período de nove dias, obtinha-se uma série que dava a rota do Sol através das 28 Casas do Zodiaco lunar.

Os Maias utilizavam também o ano venusiano, de 584 dias. Cinco anos venunsianos correspondiam exatamente a um ciclo de oito anos solares. Desempenhavam também o seu papel, nesta ciclogia tão complexa: o ciclo de treze anos venusianos e o ciclo de vinte anos solares (7200 dias), chamado Katune. Ora, os planetas Júpiter e Saturno não se encontram em conjunção de vinte em vinte anos? Vê-se toda a extrema complexidade do calendário Maia e Azteca, com a interferência dos ciclos lunar, solar e venusiano.

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A ASTROLOGIA NA IDADE MÉDIA
 

ISLÃO

Foi graças, sobretudo, aos Árabes que o Ocidente medieval pode conhecer a alquimia, através das traduções latinas de textos de autores muçulmanos, e graças principalmente ao Islão que a Latinidade entrou em contacto com a astrologia. Notar-se-á, a influência nos primeiros astrólogos muçulmanos das crenças astrais, herdeiros do culto planetário babilónico e grego, dos Saberes de Harran.
Do ponto de vista metodológico, os astrólogos árabes utilizaram com perícia os métodos horoscópicos já aperfeiçoados pelos Gregos aperfeiçoando-o ainda mais. Não esqueçamos a reputação histórica – tão justificada – dos Árabes do início da Idade Média em matéria de cálculo, que se estendeu ao cálculo de horóscopos.

No apogeu da sua expansão, Bagdad, sítio próximo da antiga Babilónia, a esplendida cidade dos califas, assistiu também ao florescimento da astrologia. O faustoso Harun al-Raschid (contemporâneo de Carlos Magno), entre outros “orientadores dos crentes”, foi intitulado seu protetor. Bagdad assistiu à construção de um importante observatório, em que trabalharam astrólogos como o célebre Albumasar (falecido no ano 886 da era cristã). No seu livro As Flores da Astrologia, conta-se um episódio edificante e maravilhoso a propósito do seu primeiro contato com o ilustre filósofo muçulmano que viria a tornar-se seu mestre em astrologia: Al-Kindi (nascido em Koufa cerca do ano 796, falecido em Bagdad em 873, d.c). Albumasar, fervoroso aluno de um médico da corte persa, havia ficado de tal modo indignado ao ouvir Al-Kindi criticar publicamente as opiniões do seu professor que, por dedicação fanática a este, decidiu matar o adversário. Para tanto, armou-se de um punhal com a intenção de assassinar o dito Al-Kindi na própria sala onde dava os seus cursos. Este olhando fixamente o recém-chegado, ter-lhe-á dito: “Não és Albumasar de Balkh? Serás o maior astrólogo do século, mas deves renunciar ao teu mau desígnio. Deita fora o punhal, senta-te e aceita a doutrina”. Albumasar ter-se-ia então inclinado, para se tornar desde logo o mais fiel discípulo de Al-Kindi. De toda a maneira Albumasar foi um dos alunos mais distintos deste eminente filósofo e sábio universal. Albumasar é o nome latinizado do célebre astrólogo muçulmano sendo o seu verdadeiro nome Abû Mash’ar ar Balkhi e o seu principal tratado (em que o estudo das conjunções desempenha um papel importante) foi “O Kitab al Mudkal”, ou “Introdução à Astrologia”.

No apogeu da capital dos califas, e muito tempo depois, a astronomia e a astrologia estiveram ligadas no mundo árabe. Todos os astrónomos de Bagdad eram, ao mesmo tempo, astrólogos famosos. Indicamos alguns nomes de astrólogos, autores de tratados em língua árabe. Abû Sahl ibn Nawbakht, diretor da vasta biblioteca de Bagdad sob o reinado de Harun al-Raschid, traduziu para árabe diversos manuais escritos em iraniano-médio (pehlevi) que eram já a tradução de autores astrológicos pagãos (as obras de Teukros, da Babilónia; as do astrólogo romano Vettius Valens, igualmente). Ibn Wahsîya, um dos mais eminentes representantes islâmicos da tradição hermetista, cultivou com fervor tanto a astrologia, como a alquimia e a magia. Thâbit ibn Qarra, principal doutor da seita dos Saberes de Harran, cultivou também a astrologia, não só no seu aspeto horoscópico, mas também nos seus laços com a magia (escreveu acerca da arte de realizar amuletos astrológicos). Abû Ali Yacoub ibn Kayar escreveu o reputado tratado de astrologia genetlíaca, que viria a ter várias traduções latinas.

Rhazes (Al-Razi) foi um dos maiores médicos muçulmanos da Idade Média. Tanto nas suas obras astrológicas como nos seus tratados de alquimia, preocupava-se essencialmente com as consequências terapêuticas de um conhecimento profundo destas duas artes ocultas.

A filosofia muçulmana teve, no entanto, dois adversários notáveis da astrologia: Bîrûnî e Avicena. Bîrûnîb teve uma polémica com o astrólogo Abu Maseh’ar, este um grande filósofo e sábio tradicional havia adotado a velha doutrina dos ciclos cósmicos. De entre os astrólogos muçulmanos da Idade Média espanhola, poderíamos citar Al-Beruyi (Alpetragius para os Latinos), nascido cerca de 1200 d.c, que se esforçou por dar uma nova explicação do movimento dos planetas, e Al-Kabisi (Alcabitius). É em Tunis, em compensação, no palácio do Sultão Al-Mamur (1016-1062), que se desenrola a carreira de Albohazen Haly, ou Abenragel Haly. A sua reputação como astrólogo tornou-se considerável, mercê da obra dos Julgamentos dos Astros (em oito livros), que lhe valeria os qualificativos tão elogiosos de Ptolomeus alter (o outro Ptolomeu) e de Summus astrologus (o maior astrólogo).

A Espanha muçulmana desempenhou, sem qualquer dúvida, um papel capital na penetração crescente da astrologia na Cristandade medieval. É ao astrólogo árabe Al Zarkali (Arzachel) que se devem as tábuas planetárias conhecidas pelo nome de Tábuas de Toledo, utilizadas tão frequentemente no decurso dos séculos seguintes.

A astrologia não desapareceu no Islão depois da Idade Média, mas não parece ter suscitado obra maior.

Entre os processos divinatórios associados à astrologia muçulmana, são de mencionar a arte de construir pentágonos estrelados e talismãs mágicos, e também a geomancia ou adivinhação pelas figuras formadas pela disposição dos pontos projetados segundo um método tradicional, quer seja por traçado no papel, ou por desenho automático na areia.

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ASTROLOGIA ENTRE OS JUDEUS MEDIEVAIS

O apogeu da civilização medieval árabe parece ter sido marcado por relações amigáveis entre sábios muçulmanos e judeus. É assim que um judeu, Mash’allah, desempenhou, no domínio da astrologia, um papel muito importante na fundação de uma escola e de um observatório afamado na Bagdad dos Califas. Parece ter havido no esoterismo muçulmano medieval uma influência direta das tão complexas especulações numerológicas dos rabinos nas letras e nos números sagrados, influência muito nítida em certos astrólogos. É normal supor tal influência da Cabala na obra de Sir al Hakim (O segredo dos sábios) de Mohyiddin Bûnî, consagrada aos noventa e nove nomes de Allah.

 

BIZANTINOS

Embora tenha sido principalmente por intermédio das tradições latinas de autores árabes que a astrologia penetrou no Ocidente, não é de omitir a durável conservação, no Império bizantino, dos conhecimentos gregos, tanto em matéria de adivinhação astral, como nas outras disciplinas. No século III, autores como Teodoro Prodrome e João Camateros escreveram dois longos poemas astrológicos. O último grande filósofo platónico de Bizâncio, Plethon, que também acredita na astrologia, foi uma personalidade historicamente importante, que fez a junção entre o helenismo medieval bizantino e o primeiro Renascimento italiano. Permaneceu em longas estadias na Itália, nomeadamente em Florença, onde se tornou amigo de Petraca e de Marsilo Ficino.

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ASTROLOGIA NO OCIDENTE MEDIEVAL

É seguramente por intermédio da Espanha arabizada que se efetuou a espetacular entrada em cena da astrologia tradicional no Ocidente cristão datada do século XII, especialmente marcado pelo seu regresso em força, seguido pela oficialização desta arte nos diversos reinos cristãos.
Mas qual será a atitude oficial da Igreja em relação à astrologia ao longo da Idade Média? As razões pelas quais vários Doutores da Igreja desconfiavam tanto das tentativas astrológicas greco-romanas para justificar as ações humanas por meio de um rigoroso determinismo planetário e estelar foram a negação da liberdade do homem e do mundo e o risco de venerar as divindades e potências sobrenaturais, a que se atribui o domínio dos astros. (Cf.M de la Ville de Mirmont, L’ástrologie em Gaule ao V siécle) (Revue des Éstudes Anciennes, 1902, pp115 e seguintes, 1903, pp.255 e seguintes)

Na realidade, praticamente, os astrólogos medievais não foram inquietados pela Igreja, salvo quando entravam abertamente nas práticas mágicas e na heresia. Astra inclinant, non necessitant – “Os astros orientam, não determinam.” – pertinente adágio medieval que não cessará de ser lembrado até aos nossos dias.

Os astrólogos medievais foram levados cada vez mais a imiscuir-se na política. Os próprios soberanos faziam cada vez mais apelos aos seus serviços e os adivinhos podiam ser tentados a intervir nos negócios públicos. É assim que vários astrólogos famosos nos seculos XIII e XIV intervieram nas intrigas tão complexas dos Gibelinos, partidários do Imperador, contra os Guelfos, que defendiam o poder temporal dos papas, na famosa “Luta do Sacerdócio e do Império”.

Como todas as épocas conturbadas, a Idade Média assistiu à influência deprimente ou exaltante de diversas predições. Se é bem conhecido o célebre “pânico do ano 1000”, poderia ainda, citar-se, entre os malogros aparentes das predições astrológicas, o da previsão que fez João de Toledo em 1179. Anunciou, efetivamente, uma conjunção de todos os planetas no signo da Balança para o ano 1186, que deveria desencadear um terrível cataclismo natural, porém nada de notável se passou (ver Louis Mac Neice L’Astrologie, Paris, Tallandier, 1966, p138). Na Idade Média, nenhum conflito se podia produzir entre as ciências da Natureza, tal como se apresentavam, e as ciências qualificadas hoje de “ocultas”, entre as quais a astrologia e a alquimia.

A astrologia encontrou o seu lugar no Speculum majus de Vincent de Beauvais (nascido em fins do século XII) essa colossal enciclopédia, que necessitou do auxílio de numerosos colaboradores especializados, que era, de certo modo, o “Larousse” , manuscrito evidentemente, do período.

O sistema Ptolomeu continuará durante muito tempo a dominar os espíritos, com a sua imagem astrológica dos sistemas do mundo.

RENASCIMENTO


Mapa Natal do Séc. XVIISeria um erro considerar que o Renascimento teria marcado um descrédito progressivo da antiga astrologia, à medida que avançavam as grandes descobertas científicas e técnicas. Longe, portanto, de diminuir no Renascimento, o número dos astrólogos aumentou cada vez mais, nos séculos XV e XVI, e o seu prestígio era muito mais importante do que na parte final da Idade Média. Das mais altas personagens às massas iletradas, os homens preocupados com o futuro tinham plena confiança nos astrólogos.

Do ponto de vista dos métodos praticados pelos astrólogos do período, pode verificar-se que são muito pouco diferentes dos usados pelos antecessores medievais e até dos praticados pelos astrólogos árabes, gregos ou romanos. A própria disposição dos horóscopos de nascimento permaneceu a mesma na Europa, até ao fim do século XIX.

A este propósito, não seria inútil assinalar ainda que a disposição circular dos horóscopos, a que estamos habituados hoje, é, efetivamente moderna (remota ao astrólogo “cientifico” Choisnard, de fins do século passado). Antes, a disposição mais corrente era em quadrado. Os horóscopos do Renascimento, como os da Idade Média, eram quase sempre apresentados com esta disposição tradicional, formada pela inserção de um quadrado no centro de outro, e pela determinação linear subsequente de doze regiões, envolvendo um terceiro quadrado (figura acima). No centro do pequeno quadrado central, o astrólogo inscrevia a data e a hora de nascimento do individuo. Cada um dos sectores, correspondente às doze “casas” solares que se presume regerem os diversos domínios em que se exerce a atividade humana, devia ser preenchido em conformidade com os planetas e constelações descobertos no estado do céu, analisado no momento do nascimento.
No momento em que a astrologia parecia tão profunda e intimamente ligada ao sistema geocêntrico de Ptolomeu (a Terra reinando no centro do Universo), o advento de uma astronomia moderna (que fará com que dai em diante a Terra e os outros planetas girem à volta do Sol) não foi acompanhado, entre os seus promotores, de um desmoronar súbito das crenças no velho determinismo astrológico. O próprio Copérnico nunca renegou a sua crença nas influências planetárias. Foi ao seu amigo austríaco, o famoso astrólogo Rheticus, que confiou o cuidado de publicar a obra que expunha o seu novo sistema heliocêntrico -  o Revolutionibus Orbis Coeletium ( Das Revoluções das Orbes Celestes-1543).
Quanto ao grande astrónomo dinamarquês Tycho-Brahé (1546-1601), o mestre de Kepler, não foi somente um observador infatigável dos espaços celestes, mas um astrólogo convicto que passou longos anos a elaborar minuciosamente horóscopos. Mesmo entre os percursos diretos daquilo a que se chama o livre-pensamento contemporâneo, encontrou-se uma defesa sistemática da astrologia! É o caso com Pomponazzi ou Pompanácio (1462-1525) no seu De Fato (“Do Destino”) onde invocou as leis astrológicas para justificar o completo determinismo das ações humanas – tanto individuais como coletivas.
Mesmo folheando um manual histórico muito rudimentar, o Renascimento revelar-se-nos-ia como um período extremamente perturbado. Praticamente é só com o advento do século XVII que se operou a distinção bem acentuada, e que será definitiva, entre a astronomia (no sentido moderno do nome) e a astrologia. Para a maioria dos homens do século XVI, a confusão continuava a espalhar-se.
Resumindo, seria rigorosamente impossível eliminar a astrologia da história das ideias durante os seculos XV e XVI (ver Jean Delumeau, La Civilisation de la Renaissance, Paris, Arthaud, 1967).

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ASTROLOGIA E NOSTRADAMUS

Michel de Nostredame (1503-1566), mais conhecido pelo nome latinizado, Nostradamus, foi, como já fora seu pai, um dos médicos mais ilustres da época, embora se tenha tornado mais celebre como astrólogo e profeta. Até à época presente, a sua obra mais célebre, as Centúrias, não cessa de ser reeditada, excitando os audaciosos e pacientes esforços de gerações de exegetas e de intérpretes. Nostradamus morreu, observe-se, nas condições e hora exata que ele próprio predissera. Saudemos este fato, excecional entre os videntes, profetas e adivinhos, que, de modo geral, perdem as faculdades quando se trata de olhar para si próprios.

Nostradamus não é a única personalidade do Renascimento que ligou a astrologia a práticas proféticas. Há, ainda, o caso de John Dee (falecido em 1604) que, no reinado de Isabel da Inglaterra, aliou a prática da magia cerimonial às da alquimia e da astrologia.

ITALIA E ALEMANHA
Marsilio Ficino (1433-1499) na sua obra Teologia platónica, (sua obra principal), estabeleceu a existência, acima da alma formadora da Terra, das doze almas celestes, donas dos signos do Zodíaco. Cada uma delas governa, portanto do alto da sua “casa”, uma parte das coisas cá em baixo. O Sol, “coração do céu”, envia a sua luz, que aquece e unifica, sobre todas as criaturas terrestres, mas só no homem o raio tem vida, brilha, e recebe a luz.
Entre os mais famosos astrólogos italianos profissionais da época, citemos Cristoforo Landino (1434-1505), professor da Universidade de Florença. Anunciou que a conjunção de Saturno e de Júpiter no signo de Escorpião (25 de Novembro de 1484), longe de ser maléfica, anunciaria a renovação nacional italiana. Mas o mais célebre dos astrólogos transalpinos do período é o ilustre Jerónimo Cardan (1501-1576), que realizou estudos muito desenvolvidos na Universidade de Paris, nos diversos ramos do saber. Não se deve minimizar os conhecimentos de Cardan, um dos maiores matemáticos do seu tempo, nomeadamente na matemática aplicada. Deve-se a ele, a descoberta de um modo de suspensão (que ainda tem seu nome), permitindo subtrair as bússolas dos navios ao movimento da vaga. Ensinou em Paris até 1523, onde a sua reputação de médico, matemático e de astrólogo não cessou de crescer.
Dois homens em especial encarnaram, na Alemanha, o hermetista do Renascimento - Henri-Corneille Agrippa de Nettesheim (1486-1535) e o ilustre Paracelso (1493-1541). Do primeiro, a célebre Filosofia Oculta circulou em manuscrito antes da sua publicação em Colónia, em 1510. É um tratado completo de filosofia secreta, visando colocar ao serviço do homem todas as potências escondidas em ação no Universo. Referia a existência de três mundos separados, o dos Anjos, o dos Astros, e dos Elementos. Cada um dos dois últimos sofre as influências daquele que o precede e assim se encontraria, portanto, justificada a astrologia.
No sistema de Paracelso, a astrologia tradicional encontrou perfeitamente o seu lugar, inclusive no domínio médico. Para estabelecer a justa dosagem dos medicamentos a prescrever, seria necessário, pensava ele, conhecer o horóscopo do doente de maneira a ter em conta a repartição das influências astrais. Paracelso é um dos representantes ocidentais da tradição hermética que mais se consagraram a desenvolver a doutrina do Homem como imagem, como representação do Cosmos e todas as aplicações práticas do sistema médico paracelsiano assentam neste princípio (ver Philosophia ad Athenienses de Paracelso.)

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KEPLER E A ASTROLOGIA

O grande astrónomo Kepler (1571-1630), a quem é devida a elaboração das três leis que regem as órbitas dos planetas em torno do Sol, durante toda a sua vida praticou a astrologia fazendo horóscopos para angariar o sustento para si e para os seus. Kepler nunca colocou em dúvida a possibilidade de elaborar temas de nascimento exatos, como também quis renovar a astrologia desenvolvendo todo o sistema tradicional baseado na velha doutrina pitagórica da harmonia das esferas onde cada planeta emite na sua órbita a sua música própria. Os aspetos planetários agiam não só sobre a Terra no seu conjunto, mas sobre todos os seres que nela se encontram reunidos, inclusive os homens (ver a maior obra de Kepler, as Harmonices Mundi, na tradução francesa por Francis Warrain, Paris, Hermann 1942).

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ASTRÓLOGOS ROSACRUCIANOS

Entre os membros da fraternidade rosacruciana (fundador lendário Christian Rosencreutz) nos começos do século XVII, a astrologia gozava de grande reputação, constituindo para eles uma das componentes indispensáveis das ciências herméticas tradicionais. (Ver Bodas químicas de Christian Rosencreutz))
O Rosacrucianismo europeu contará com um astrólogo de grande renome na pessoa do médico alquimista inglês Robert Fludd (1574-1637). Definia a astrologia como uma ciência de adivinhação pelo aspeto da harmonia celeste e do jogo dos elementos sublunares. Dividir-se-ia em duas grandes partes: a astrologia “natural” e a astrologia “sobrenatural”, ocupando-se esta da produção metódica dos talismãs e pentágonos estrelados protetores. Mas, aos olhos de Fludd, a astrologia formava uma das ciências tradicionais cujo conjunto constitui o edifício mais coerente que se possa conceber. Robert Fludd escreveu uma extraordinária enciclopédia rosacruciana em latim, Utriusque Cosmi Historia ( “Hisatoria de um e do outro Mundo”), isto é, do Macrocosmo e do Microcosmo, do Universo e do Homem, abundantemente ilustrada de muitas belas estampas simbólicas. Tanto aos olhos de Fludd como aos de Paracelso e de toda a tradição hermética, reina uma correspondência analógica perfeita entre o conhecimento tradicional do Universo e do Homem. A ação celeste sobre o mundo inferior, físico, opera-se pela conjunção das influências do planeta e do signo. Fludd tinha uma ideia muito elevada da astrologia, que considera como uma parte do edifício sagrado.

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ASTROLOGIA EM DESCRÉDITO CIENTIFICO

La Fontaine exprimiu muito bem a evolução, nos meios cultos franceses, da atitude geral a respeito da astrologia. Em pleno século XVII considerava a astrologia como o protótipo das “falsas ciências”, colaborando para a separação definitiva da astrologia da astronomia em França e nos países europeus.
Galileu ainda acreditava na orientação astral a ponto de elaborar numerosos temas. Em 1609, elaborou o horóscopo do seu protetor, o grão-duque da Toscânia, a quem previu uma vida longa - garantia temerária, pois a alta personagem morreu semanas depois. A partir de 1650 a situação mudou completamente sendo que nenhum astrónomo, com exceção de Flam Stead, criador do Observatório de Grennwich, reconheceu mais a astrologia como ciência credível.
Em 1666, aquando da criação da Academia das Ciência, Colbert, a astrologia foi excluída das disciplinas oficialmente reconhecidas.
Contudo, naturalmente, esta evolução gradual nas reações dos meios europeus cultos não teve reflexo direto imediato em todos os estratos sociais, subsistindo a velha crença nas predições astrológicas. Verificar-se-ia isso ao nível popular, visível na contínua venda dos calendários astrológicos e ver-se-ia, até, o almanaque Vox Stellarum ( “A voz das estrelas”), criado pelo astrólogo inglês Francis Moore (1657-1715), a ser publicado até 1896. O mesmo se verificaria ao nível das elites cultas, no grande século, e foram numerosas as altas personagens que acreditavam na astrologia, a ponto de terem ainda o seu astrólogo.
No século XVII, a Itália conheceu toda uma escola de astrólogos entre religiosos. Citemos o padre Placidus de Titis (1603-1668), que se consagrou a calcular com precisão todas as conjunções planetárias do ano 3980 antes de a.C. ao ano 2358 depois a.C. Citemos igualmente, entre os astrólogos italianos desse período, Bonatti, professor na Universidade de Pádua (autor, em 1687 “Universa astrosophia naturalis”) e Tattoni, médico municipal de Terni e forte defensor da astrólogia médica, (autor de “ Il medico astrólogo o vera apologia medicofisica astrólogo contra il volgo” – 1685).
É importante citar dois astrólogos do século XVII, Morin de Villefranche (1583-1650), que publicou a obra “Astrologia Gallica”, tradução de Richard S. Baldwin (do original em latim de 1661) e seu contemporâneo inglês, William Lilly (1602-1682), que publicou o livro “Christian Astrology” Londres, Regulus Publishing Co, 1985 (fac-símile de 1647), ambos bastante úteis aos astrólogos até aos dias de hoje. Das obras de William Lilly podemos entender de onde vieram certas fantasias astrológicas do nosso tempo que invariavelmente se distanciam e desfiguram o sentido original e a razão de ser, distorcendo a sua finalidade superior, como adverte o autor nas suas obras das quais destacamos: Catalogue of Astrological Work ; A Natividade de William Lilly ; A Questão Horária em Lilly; Aforismos ; Aspectos ; Anima Mundi; Anima Astrologiae..

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SOBREVIVÊNCIA DA ASTROLOGIA

À medida que o século XVIII avança, não se verifica, pelo contrário, a existência particularmente persistente daquilo a que muito justamente se chamou “o inverso do século das luzes”.
Há tendência para ver o século XIX como época anti-astrológica, por excelência, com a definitiva libertação dos astrónomos em relação a qualquer pensamento reservado de possível utilização do estudo dos astros para fins divinatórios.
Uma vez mais, sentimo-nos inclinados a projetar sobre os nossos antepassados as rigorosas exigências racionalistas, que se tornaram tão próprias dos sábios do século XX. O simples exame das obras publicadas na primeira metade do século XIX bastou para nos mostrar a coexistência da astronomia e da astrologia, em paralelo com os tratados científicos mais rigorosos, como é o caso da obra de Isaac Ardant, “Essais de Philisophie Physique et Astronomique sur quelques de la Nature et du globe”, Paris, Sautelet et Cie, 1826).
Alarmando-se com os perigos do charlatanismo, o Parlamento britânico colocou os astrólogos fora da lei, cuja disposição encontrava-se curiosamente englobada no ato sobre a vagabundagem, sem dúvida por causa de os adivinhos atuarem, de preferência, nas festas campestres e nas feiras.
No entanto, a astrologia, embora desacreditada em relação ao público culto, continuava a subsistir, e não apenas entre os charlatães exploradores da credulidade pública. O inglês John Varley publicava em 1828, o seu importante Tratado de Fisiognomonia Zodiacal.

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DESPERTAR DA ASTROLOGIA

Os almanaques de Zadkiel e Raphael, grandes ilustres homens ingleses, renovaram a astrologia e ainda hoje, almanaques astrológicos continuam a ser publicados na Grã-Bretanha sob estes pseudónimos.
Richard James Morrison, que viria tornar-se conhecido por Zadkiel, nasceu em 1795, começando por ser oficial da Marinha Real, renunciando, em 1829, à sua carreira, para se consagrar completamente à astrologia. Quando ao seu contemporâneo Raphael, era efetivamente, o astrólogo William C.Wright. Pode dizer-se que é pela difusão destes dois ingleses que a astrologia obtêm a sua reabilitação na opinião pública, e tanto mais que ela visava, deliberadamente, apresentar-se, a partir de então, liberta do carácter “oculto” ligado outrora a esta arte.
Esta tendência para a constituição de uma astrologia “científica” acentuou-se na segunda metade do século XIX. Sempre em Inglaterra, Alan Leo (1860-1917), W.F. Allen, de seu nome verdadeiro, fundou, em 1896, a primeira grande revista “científica” de astrologia, “Modern Astrology,  o seu livro “1001 nativities” teve imenso sucesso e permaneceu, até hoje, um manual prático muito considerado. Alan Leo obteve émulos muito numerosos entre os seus compatriotas e citemos, ainda, Walter Richard Olg, mais conhecido pelo seu pseudónimo, Sepharial.
A segunda metade do século XIX viu a astrologia “científica” espalhar-se não somente no mundo anglo-saxónico, mas também nos outros Estados ocidentais.

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SÉCULO XX

Apesar da generalização da imagem copérnica do mundo (o Sol, e não a Terra, tomado como centro do nosso sistema planetário), a astrologia não estava, de maneira nenhuma, voltada à desaparição. Bem pelo contrário, longe de ser algo de efémero, o espetacular renascimento da astrologia durante a “Belle Époque” não devia cessar de se acentuar à medida que corriam os anos do século XX.
Alguns anos antes da Segunda Guerra Mundial, o “fakir Birman”, de origem francesa, havia tido a ideia de publicar os seus horóscopos quotidianos, preparados para os nativos de cada um dos signos do Zodíaco, num jornal parisiense de grande tiragem, tendo sido o sucesso imediato e estrondoso, pelo que o mesmo processo passou a ser utilizado, em grande escala, em todo o mundo, por inúmeros praticantes.
Mas a astrologia comercial não podia deter-se num caminho aparentemente tão positivo, e não contente por colocar ao seu serviço a grande Imprensa diária ou semanal, utilizou ainda técnicas modernas. Desta forma, e após a Imprensa, veio a utilizar a rádio e a televisão como meios massivos de difusão, porém com efeitos imprevisíveis e dificilmente passíveis de serem controlados na recuperação da credibilidade dos fundamentos astrológicos.
Não poderiamos falar deste século, sem falar de Marc Edmund Jones, considerado o decano dos astrólogos americanos. Na sua longa e profícua carreira, fez um pouco de tudo - criou os símbolos sabeus e a teoria dos modelos planetários; foi filósofo, teosofista, pastor presbiteriano, roteirista de cinema, escritor e um dos mais criativos astrólogos do século XX. A grande contribuição de Marc Edmund Jones para gerações de astrólogos foi o desenvolvimento de uma teoria de base gestaltista para a compreensão do mapa natal. A ideia central da Gestalt, ou Psicologia da Forma, é que o todo é maior do que a soma das partes. A forma de um objeto é mais importante para a nossa perceção do que os elementos que o constituem. Aplicado ao mapa, este princípio revolucionou toda a técnica de leitura, pois desloca o foco de atenção das qualidades isoladas de cada planeta para o desenho geral da carta. O lançamento da teoria dos modelos planetários (planetary patterns), ou modelos de personalidade com base na distribuição planetária, aconteceu em 1941, através de um despretensioso livro chamado “How to learn Astrology”. Daí em diante, cada vez mais termos como Gangorra, Balde, Locomotiva, Salpicado, Tigela e outros popularizaram-se no jargão astrológico, fazendo parte hoje do repertório do astrólogo de orientação comportamental. Jones trabalhou na teoria dos modelos até seus últimos livros, nos anos 70. Ao falecer em 1980, aos 92 anos, deixou uma contribuição realmente inovadora para a Astrologia do século XX. (Consulte Especialidades.)
Outro grande nome da época que se mantem nos tempos de hoje, é Dane Rudhyar. Rudyar aprendeu astrologia durante um período em que também estava a estudar os escritos psicológicos de Carl G. Jung, e começou a pensar em utilizar a astrologia e a psicologia junguiana. Desta junção superou alguns problemas básicos da astrologia, incluindo a sua abordagem determinística para a vida e os problemas da designação de um agente agradável para produzir os efeitos astrológicos. Rudhyar postulou que as estrelas não causam os efeitos observados na vida humana, mas eram fotos "synchronistically" (sincronicamente) alinhadas dos seres humanos. Acrescentando : ”Elas detalham as forças psicológicas dos indivíduos, mas não substituem a liberdade humana na resposta a essas forças.”. Ele chamou a sua nova interpretação de astrologia "harmónica" e como as idéias amadureceram rebatizou-a de astrologia "humanista", no tema do seu livro, The Astrology of Personality, publicado em 1936. Um amigo, teosofista Alice A. Bailey, estimulou o desenvolvimento do seu pensamento e publicou o seu livro.
Em 1969 Rudhyar fundou o Comitê Internacional para a Astrologia Humanística, uma pequena sociedade profissional que trabalhava no desenvolvimento da sua perspectiva. Começou um dos períodos mais fecundos da sua vida, escrevendo vários livros por ano para a década seguinte. Ele começou a absorver os conhecimentos da astrologia transpessoal que se concentraram em explorar estados alterados e exaltados de perceção e, em meados da década de 1970 transitou para além da astrologia humanista, que designou de "astrologia transpessoal." Rudyar também começou a refletir sobre o movimento da Nova Era e escreveu vários volumes mais sofisticados sobre a consciência planetária e a filosofia New Age.

Assim foi até os anos 70, quando o movimento New Age surgiu,  quando as grandes editoras o descobriram e começaram a publicar seus escritos. O primeiro foi “A Prática da Astrologia”, publicado em 1970 pela Penguin Books.
Na analise astrológica deste século, destacamos o seu último aperfeiçoamento, o horóscopo estabelecido, em tempo recorde, pelo ordenador eletrónico, com o seu Astroflash lançado pela I.B.M em 1968, em França. Partindo da data de nascimento (dia, hora e lugar), o aparelho calculava os dados astronómicos da carta do céu natal e traçava a posição dos planetas, num retrato psicológico individualizado.
Outros dois grandes nomes da astrologia que não poderiamos deixar de destacar, e que se mantêm até aos dias de hoje, dando seguimento à astrologia teosófica e a astrologia psicológica, são Liz Greene e Eduard Sasportas, da Escola Alemã de Ebertin. Autora de grandes obras, destacamos os seguintes títulos: “Saturno”, “Astrologia para Amantes”, “Os planetas exteriores”, e várias palestras, como por exemplo; TheJupiter / Conferência Saturno (com Stephen Arroyo, outro grande nome da astrologia deste século) e TheAstrology do destino. “O desenvolvimento da personalidade” (quatro volumes, com Howard Sasportas), “Dinâmica do Inconsciente” (com Howard Sasportas), e muitos outros poderíamos destacar, os quais poderá consultar na nossa Biblioteca.

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ÚLTIMA ANÁLISE

Durante séculos a Astrologia centrou-se na observação de objetos astronómicos e no registro dos seus movimentos. Como vimos na cronologia da sua evolução, os astrólogos têm usado dados coletados pelos astrónomos e organizados em tabelas chamadas efemérides, que mostram as posições dos corpos celestes.
A ferramenta principal da Astrologia é o Horóscopo (também conhecido como carta natal, carta astrológica, mapa natal, mapa de nascimento, mandala ou apenas carta). Este mapa é um diagrama bidimensional que representa a posição dos corpos celestes vistos num certo local, que pode variar desde o centro da Terra, à sua superfície, e tendo o Sol como ponto central.
Vamos dar mais profundidade à sua atuação, e para isso, pedimos que consulte ESPECIALIDADES/SISTEMAS/TECNICAS.

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FONTES
 

  • Johannes Kepler, “Concerning the more certain fundamentals of astrology”
  • Kocku von Stuckrad, “História da Astrologia”
  • Al Biruni, " O livro de Instruções dos elementos da Arte da Astrologia"
  • Isaac Newton, “Astronomical Dialogues between a Gentleman and a Lady” e
  • “Where in the Doctrine of the Sphere, Uses of the Globes, and the Elements of Astronomy and Geography are”
  • James Randi, “Astrology”
  • Serge Hutin, “História da Astrologia”
  • Nice, “Éditions des Cahiers Astrologiques”
  • Cf. M. Kern, “Das Licht des Ostems; Die Weltanschauung in Indien, China und Japan”
  • Henry Corbin, “Historie de la philosophie islamique”
  • Albumasar, “As Flores da Astrologia”
  • Alexandre Volguine, “L’Astrologie chez les Mayas et les Aztéques”
  • Márcia Sarcinell , “ Hitler - um estudo astrológico”
  • La Tour Saint-Jacques, “Kepler e a astrologia”  1956
  • Derek e Julia Parker: “O grande livro da astrologia”
  • William Lilly, "Chiristian Astrology"
  • Guido Bonatus, "Anima Astrologiae"
  • Francis Bacon,  "Teoria do Céu"
  • André Barbault,  “Tratado Prático de Astrologia”
  • Morin de Villefranche , “O Astrologia Gallica”
  • Oto Neugebauer e Van Hoesen, "Greek Horoscopes"


e várias referencias ao longo dos textos, onde colocamos a devida fonte.


Consulte a Biblioteca no nosso site, com várias obras escritas ao longo dos séculos.

Esta compilação é da responsabilidade da ASPAS, onde foram consultadas as fontes referidas e feitas as respetivas traduções.

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