Sistemas das Casas Astrológicas

Existem vários métodos de obter as casas astrológicas, os seus princípios, vantagens e desvantagens, para que cada um possa escolher por si qual o sistema que irá adotar. Dos cerca de 200 métodos existentes, destacamos e apresentados: Campanus, Regiomontanus e Placidus.

A escolha dá-se por duas razões: são sistemas de Casas Quadrantes (o Ascendente e o Meio-Céu correspondem às cúspides das casas I e X respetivamente) e podem ser representados astronomicamente.

Os critérios utilizados para escolher e comparar os métodos são:

Coerência astronômica: O método representa o espaço local do momento do nascimento do nativo?

Coerência astrológica: O método encaixa-se nos princípios astrológicos previstos? Permite técnicas derivativas (Direções Primárias)?

Coerência interpretativa: Qual a linguagem ou informações que se mostram mais adequadas ao método?

Os sistemas de casas de Koch e Wendell-Page (Topocêntrico) não têm representação astronómica, embora sejam sistemas de Casas Quadrantes, e, portanto, não preenchem o primeiro critério.

As Direções Primárias são um método preditivo que se baseia inteiramente nas casas astrológicas e, por esta razão, é sempre utilizado para validar um dado sistema de casas. Partindo-se do princípio verificado de que com as Direções Primárias, num dado sistema de casas, obtêm-se datas corretas, então este método é confiável.

Portanto, os dois primeiros critérios são parcialmente intercambiáveis, uma vez que o método que valida o segundo critério se baseia fortemente em conceitos astronómicos.

Introdução

O sistema de casas é uma representação... mas de quê?

Esta questão conceptual esteve na mente de muitos astrólogos e esbarra em outro problema ainda maior, que é transportar um sistema de referência em três dimensões para uma representação em duas dimensões, como é uma folha de papel. Portanto, as dificuldades são inúmeras.

Então precisamos de alguns conceitos iniciais:
 

  • Cada casa astrológica representa um setor ou campo de atividade da vida humana, uma área de ação, com seu simbolismo particular em razão de sua posição no Zodíaco, de seu regente e dos astros que nela se encontram.

 

  • No sistema de Casas Quadrantes, o Ascendente corresponde à cúspide da casa I e o Meio-Céu, à cúspide da casa X. Considera-se ainda que as cúspides das casas opostas também se opõem (encontrando-se no mesmo grau, do signo oposto).


Para efetuar a divisão de que resulta o restante das cúspides, temos algumas possibilidades, que resultam nos principais métodos de divisão das casas:
 

  • Eclítica (ou Zodíaco): Uma vez obtidas as posições do Ascendente (e Descendente) e do Meio-Céu (MC) e Fundo do Céu (IC), divide-se a região compreendida entre o Ascendente e MC, na Eclítica, em três secções iguais, obtendo-se as cúspides casas XI e XII. Da mesma forma, procede-se dividindo, na Eclítica, a região compreendida entre o Ascendente e o IC em três regiões iguais para obter as cúspides das casas II e III. Uma vez que as casas se opõem entre si, todas as demais casas estarão determinadas. Exemplo: Método de Porphyrio.
  • Tempo: Uma vez obtidas as posições do Ascendente (e Descendente) e do MC (e IC), calcula-se o tempo que o MC levou do grau Ascendente até culminar. Este valor é dividido por três, sendo projetado a partir de algum sistema de referência sobre a Eclítica, obtendo-se assim as cúspides das casas XI e XII. O mesmo processo é repetido para o MC, até o grau Descendente, sendo igualmente dividido por três para se chegar às cúspides das casas VIII e XI. Exemplo: Método de Placidus.
  • Espaço: O Ascendente e o MC encontram-se na Esfera Local ou na Esfera Universal. Uma ou outra são igualmente divididas e projetadas sobre a Eclítica para a obtenção das demais cúspides. Exemplo: Métodos de Campanus (Esfera Local) e Regiomontanus (Esfera Universal).


Em tempos recentes, outros astrólogos propuseram soluções diferentes para a obtenção das cúspides das casas, sem recorrer aos métodos de divisão acima ou abrindo mão do sistema de Casas Quadrantes.

O método de Campanus

Desenvolvido pelo monge Giovanni de Campani (1233-1296), trata-se de um sistema baseado no Espaço Local. Basicamente rejeitou a ideia de simplesmente dividir a Eclítica para obter as cúspides das casas, como era o método de Alcabitius, então em vigor.

Tomou como referência o Primeiro Vertical, (um círculo máximo que cruza os pontos Leste e Oeste do Horizonte, cruzando ainda o Zênite e o Nadir em ângulo reto com o meridiano do observador), que é dividido em secções de 30 graus cada, tendo como polos os pontos cardeais Norte e Sul. Os círculos assim obtidos intercetam a Eclíptica, resultando nas cúspides das casas.

Método Campanus

O fato de tomar o Primeiro Vertical como referência para a obtenção das cúspides preenche o critério de coerência astronómica, uma vez que representa fielmente o Espaço Local e o divide de maneira adequada. 

Método Campanus II

A maior parte das críticas a esse sistema deve-se ao fato da Eclítica (ou Zodíaco) ter importância secundária ao privilegiar o Zênite e o Horizonte através do Primeiro Vertical. A Eclítica é o caminho aparente do Sol e, portanto, afirmam que este método faz com que seu simbolismo (do Sol) também seja colocado em segundo plano.

O Zodíaco e os astros que se encontram no céu (Espaço Universal) são vistos, neste método, através das casas, colocando o indivíduo no centro de todo o conjunto formado pelos espaços Local e Universal, mas centrado no primeiro. Por esta razão, foi o método defendido por Dane Rudhyar e alguns outros astrólogos que postulavam uma Astrologia centrada no indivíduo. De fato, quando abordamos o sistema de casas de Campanus com maior detalhe, observamos que as casas cruzam o Zodíaco formando arcos e não exatamente secções retas, como citado pelo próprio Dane Rudhyar.

Neste ponto, podemos concluir que parte do segundo critério encontra-se também validado, pois o método de Campanus encaixa-se nos princípios astrológicos previstos ao representar adequadamente cada setor ou campo de atividade da vida humana, absolutamente centrado no indivíduo, numa visão tridimensional.

Como na maior parte dos sistemas de casas astrológicas também ocorrem distorções em altas latitudes (acima de 66º) em virtude da obliquidade da Eclíptica. Os críticos deste sistema alegam ainda que há uma grande distorção com astros de latitude elevada, como é o caso de várias estrelas. Não se trata de uma distorção de fato, uma vez que as casas representadas na Eclítica são uma consequência da projeção que ocorre a partir do Primeiro Vertical, e não a partir do Zodíaco, problema que ocorre com a maior parte dos Sistemas de Casas.

O método de Regiomontanus

Criou-se uma crença generalizada que o sistema de Placidus tornou-se o padrão empregado nos séculos XIX e XX por ser o único que possuía tabelas de fácil uso. Mas essa é uma verdade apenas parcial, pois o mesmo pode ser dito daquelas elaboradas por Regiomontanus. Se Campanus também o tivesse feito, com certeza teria sido o sistema padrão daquele período.

A pessoa que conhecemos como Regiomontanus chamava-se Johann Müller e nasceu na Alemanha em 1463, formando-se como matemático e astrônomo. Com o auxílio de Martin Bylica e por achar que existiam falhas no método de Campanus (já existente há cerca de um século, mas pouco empregado em virtude de sua complexidade), Regiomontanus elaborou um conjunto de tabelas a partir do seu próprio sistema.

Regiomontanus participou da equipa de astrónomos e matemáticos que realizou a reforma do calendário Juliano, no papado de Sixto IV, que resultou no atual calendário gregoriano. As suas tábuas de casas foram as primeiras a serem impressas regularmente. O seu método suplantou o de Alcabitius, usado ao longo da Idade Média.

No sistema de Regiomontanus, o Equador Celeste é dividido em arcos de 30 graus a partir do Ponto Leste (EP), intercetando os Polos Norte ou Sul. A intersecção destes círculos com a Eclítica resulta nas cúspides das casas astrológicas. É, portanto, um sistema de casas baseado no Espaço Universal e que se apoia parcialmente no Espaço Local (EP é obtido através da intersecção do Primeiro Vertical com o Horizonte).

Método Regiomontanus

No diagrama, o Horizonte é o arco de círculo máximo que divide a esfera em dois. Onde a Eclíptica interceta o Horizonte é o Ascendente. Os pontos sobre o Equador são divisões de 30 graus que cruzam os pontos cardeais Norte e Sul. As cúspides são projeções a partir do Equador que intercetam a Eclíptica.

Também conhecido como Sistema Racional, foi largamente empregado por astrólogos como Lilly, Cardan, Morin e Bacon. O seu método foi apenas suplantado pelo de Placidus, sendo o sistema de casas padrão por cerca de 200 anos.

Este método encontra respaldo astronómico. A Eclítica não é colocada em segundo plano como em Campanus, outro ponto que favorece este método. O fato de estar apoiado sobre o Equador permite ainda uma fácil correlação com o tempo (longitude e tempo são intercambiáveis).

Embora represente perfeitamente o Espaço Universal, o mesmo não acontece com o Espaço Local. Portanto, este método não está centrado no indivíduo, apenas o inclui no mundo (in mundo). As distorções em altas latitudes são menores que aquelas encontradas através do método de Campanus, inclusive com os astros de elevada latitude eclítica.

De um ponto de vista interpretativo, as casas astrológicas representam setores ou campos de experiência mais abrangentes e menos particulares, retratando a sua relação com o mundo.

O método de Placidus

A partir do século XIX, as tabelas de casas de Placidus tornaram-se mais acessíveis declinando o emprego das casas de Regiomontanus, consideradas bastante complexas no seu cálculo e elaboração.

Este sistema leva o nome do monge beneditino Placidus de Titis (1603-1668) que popularizou o seu uso durante o século XVII.

Como já vimos em sistemas anteriores, é comumente aceite que Placidus não tenha criado este método uma vez que esse tipo de tabela já era disponível um ano após seu nascimento, tendo surgido por volta do ano 1305. No século XII, um astrólogo hebreu chamado Abraham Ibn Ezra deu a conhecer este método como sendo empregado por Ptolomeu, mas foi Placidus que lhe deu suporte, creditando o mérito igualmente a Ptolomeu.

O sistema de casas de Placidus é absolutamente baseado no tempo e diz-se que se encontra em harmonia com as horas planetárias.

Por isso, é bem provável que seja um sistema de casas antigo e talvez conectado àquele antigo sistema de contagem de tempo, associado à passagem das constelações pelo Zênite e Horizonte, reforçando o simbolismo da passagem dos astros pelas casas. Assim, cada casa representaria duas horas de movimento diurno do Sol.

Parece ainda que este era o sistema de casas utilizado por Ptolomeu nas Direções Primárias e, por conta disto, vários astrólogos acabam por defender este sistema. Contudo, não existe nenhuma evidência que ateste a veracidade desta afirmação.

De toda forma, o sistema de casas de Placidus é de longe o método mais popular ainda em nossos dias. As Tábuas de Casas de Raphael em muito contribuem para essa popularidade, embora o "espírito" contido na elaboração do sistema de casas deva ser igualmente respeitado.

Embora os conceitos existentes neste método sejam bastante simples, o cálculo é de longe o mais complexo, pois baseia-se na projeção de círculos horários, de maneira semelhante a Alcabitius e Koch. O que diferencia um método do outro é a maneira de realizar essa projeção.

Método Placidus

No sistema de casas de Placidus, as cúspides das casas XI e III são pontos da Eclíptica obtidos por meio de semi-arcos numa razão de 1/3 da distância meridiana e as cúspides das casas XII e II, com a razão de 2/3. Em outras palavras, podemos dizer que as cúspides das casas no sistema de Placidus correspondem a pontos progredidos da Eclíptica, na razão de 1/3 e 2/3 respetivamente, projetados ao longo de seus respetivos quadrantes.

No caso em que os pontos da Eclítica são circumpolares não há como obter as cúspides das casas, o que ocorre em latitudes que correspondem ao complemento da obliquidade da Eclítica (cerca de 23,5 graus).

De um ponto de vista astronómico, este método representa o Espaço Local parcial não lhe sendo fiel, pois referencia-se primeiramente no Espaço Universal através da Eclítica, preenchendo o segundo critério, o da coerência astrológica.

As distorções em latitudes elevadas

Sempre que a latitude do local para o qual se deseja obter as casas se encontrar nas regiões polares (a partir do círculo de latitude de 66,5 graus), haverá problemas em calcular o Ascendente e o Meio-Céu, a partir dos quais as demais casas são obtidas.

Nos círculos polares Ártico e Antártico, a Eclítica coincide com o Horizonte em certas ocasiões do dia. Isso implica dizer que o Ascendente e o Descendente podem estar em qualquer lugar (ou em nenhum). Da mesma forma, nessas ocasiões não haverá Meio-Céu ou Fundo do Céu. Nesse caso, não será possível obter um sistema de casas, uma vez que estes ângulos são necessários para o seu cálculo.

E, mesmo se a Eclítica não coincidir exatamente com o Horizonte, estamos diante de uma situação crítica, pois a menor imprecisão irá acarretar enormes diferenças na divisão das casas astrológicas.

Se tomarmos o exemplo de uma latitude de 66,5 graus, veremos que se um minuto antes da Eclítica coincidir com o Horizonte, o segundo e o quarto quadrantes ocuparão um pouco menos de 20' de arco. E, dois minutos após, os mesmos quadrantes ocuparão cerca de 359,5 graus.

Especificamente nas regiões polares, uma parte do Zodíaco jamais se eleva do Horizonte, o que implica que certos signos jamais ocuparão o Ascendente. Esta situação ocorre em certas áreas da Noruega, Sibéria ou mesmo do Alasca, por exemplo. Nessas regiões, Sagitário e Capricórnio nunca se elevam no Horizonte, enquanto Gêmeos e Câncer jamais se põem. Isto quer dizer que os nativos dessas partes do globo jamais terão estes Ascendentes.

Em situações extremas, nos Polos, as interseções do Zodíaco com o Horizonte encontram-se no mesmo grau, o que quer dizer que os signos de Áries a Virgem podem encontrar-se permanentemente acima do Horizonte enquanto os seus opostos estarão abaixo. Neste caso, temos um Ascendente "estacionário".

Consultando uma tabela de casas (quadrantes), veremos que existe a mesma dificuldade com respeito ao Meio-Céu.

Conclusão

Concluímos então que a distorção em elevadas latitudes é conceptual e decorre do modo como o Ascendente e o Meio-Céu são definidos no Sistema de Casas Quadrantes, não sendo uma particularidade de um ou outro método.

No entanto, nos métodos que utilizam semi-arcos esta distorção será mais pronunciada.

Por Henrique G. Wiederspahn
Fonte: http://www.constelar.com.br/constelar/112_outubro07/sistemasdecasas1.php

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